04 julho 2016

Descativei

"Cativar. Ca-ti.var.
Tornar(-se) cativo; prender(-se) física ou moralmente a; sujeitar(-se).
Guardar em seu poder; reter, conservar."


  1. Confesso que sempre desprezei os textos em moda que ensinam o desapego. Porque eu sempre gostei de me soterrar em relações. A liquidez dos relacionamentos modernos me inquietam sim. Porém, nem todos os laços merecem manutenção. Talvez ficasse muito mais bonito em outro corpo. Os finais e recomeços fazem parte de qualquer livro.

    Ainda acho idiota o esquema de competição de desinteresse. Do prêmio para os que menos se apegam. Eu não quero me fingir inalcançável para decepções. Fingir que nunca tentei e falhei, que não consegui o que queria, que não realizei meu sonhos, que outras coisas entraram no meio do caminho e elas eram inesperadas e não o que "sempre desejei". Eu não preciso atuar uma potência que não existe, para uma plateia vazia que me espia pelo celular.

    Em 2015 passei por muitas coisas difíceis, que não estou disposta a dividir com quem não se fez presente. Não é uma forma de me vingar, é meu jeito de ir embora. À francesa. Sempre saí de fininho, sem escândalos, sem despedidas. Mas não carreguei minhas bagagens sozinha, não tinha nem forças. Três amigos foram essenciais. E eu sou eternamente grata à essas pessoas. Vi como lutavam por mim quando eu não queria nem lutar por mim mesma.

    Esse ano foi um ano muito diferente. Tive várias oportunidades, conheci muitas outras pessoas e de algumas eu me afastei. E sempre me questionam isso, como se eu pudesse oferecer uma resposta. Como se as relações humanas fossem um problema matemático que você pode apresentar uma solução convincente. Me perguntam "o que aconteceu com você?" 

    Descativei. Deixei de prender e de sujeitar-me. 
     

    Nós prendemos as pessoas em cativeiros de expectativas. Esperamos que estejam sempre presentes em nossa vida. E elas se apaixonam por isso. Se sentem amadas. O problema desses relacionamentos é o futuro. Expectativas são a iminência de algo. São projeções. Expectativas são os cárceres ilusórios onde aprisionamos nossos vínculos frágeis.

    A vida acontece no presente. E quando você for desagradavelmente despertado pra ele perceberá a ausência de muitas pessoas. Não vivemos relações reais. Amizade não é aquilo que você combina com algumas semanas de antecedência ou confirma presença em evento no facebook. Amizade é quando você está mal, não tem pra onde ir e um amigo vem te buscar. Te leva pra casa dele, cozinha pra você e te põe pra dormir com cadelinhas fofas. Seus amigos são aqueles que só precisam te avisar que precisam de um hospital porque você vai cuidar de todo o resto. 

    As pessoas relevantes na sua vida cometem erros por você. Elas não necessariamente gostam de tirar fotos, mas e quem disse que você precisa de um sistema do facebook pra te lembrar  do que aconteceu a um ano atrás? 

    Saia do cativeiro.
Leia mais sobre:

2 comentários:

  1. Chocada com o texto! Sou mt parecida com vc nisso de apenas me afastar e não me despedir... Não gosto de despedidas, na verdade não precisa haver despedidas... Espero que tenha ido dormir melhor depois de desabafar ... Lindo texto! ❤️

    ResponderExcluir
  2. Mais um texto lindo que eu fico sem palavras depois de ler. Parabéns por essa tua sensibilidade, Mandy.
    Eu me pergunto se não sou uma boa amiga ou noiva, por não ficar o tempo todo dizendo que amo, postando fotos nas redes sociais, e esse teu texto só veio confirmar a minha impressão de que um bom amigo só precisa ser "amigo".


    Beijinhos, Hel - Leituras & Gatices

    ResponderExcluir

 


Mandy Francesa
Direitos reservados 2014/2015 ©
Desenvolvido por Laíza Cabral
Ilustração por Carla Nascimento