07 abril 2016

NÃO ME ENSINE A SUA GRATIDÃO!

NÃO ME ENSINE A SUA GRATIDÃO

Eu estou exausta dessas mulheres. Elas têm um perfil bem característico. Brancas, ricas, magras, cuidam do cabelo no salão e por todos esses privilégios sofrem muito menos assédio e muito provavelmente nunca foram violentadas.

Não cresceram em bairros pobres, não estudaram em escolas públicas, não foram abusadas por parentes. Não conhecem nada da realidade de mulheres do mundo fora do delas. Mas se sentem na obrigação de falar por nós. E de nos ensinar. Nos ensinar a tal da gratidão.

Esse texto não é contra o sentimento de ser grato à vida, à comida, aos seus Deuses ou seja lá o que você sente vontade de agradecer por ter. O problema é achar que nos conhece e que temos que aprender essa filosofia como se sentimentos não fossem algo inato que qualquer um pode desenvolver. É como se elas tivessem acima, possuíssem uma compreensão superior do que é a vida. São os espíritos elevados da alta sociedade, que fazem o favor de descer até as faveladas par ensinar a pedir mais amor, por favor.

Daí elas começam a ensinar as vítimas de estupro a não verbalizarem sua dor, a não compartilhar seu sofrimento a fim de construir um possível desfecho pra mancha que é ser marcada com um estupro. Vocês tem noção de como fica o psicológico de uma mulher ou de uma criança nessa situação? Vocês sabem quantos anos é possível viver sem coragem de contar, sendo acusada de ter pedido, de ter provocado, de ter inventado?

Você acha que não se sabe dar valor à vida? Mulheres pobres, negras, trans sofrem todo o tipo de perturbação social que se pode imaginar por conta de suas experiências de vida. E uma perturbação é você. Aí de cima do seu prédio, com segurança, com educação, com saúde gritando aqui pra baixo suas palavras vazias.

Baixa um pouco sua bola. Ouça as outras. Tem certeza que é você que tem muito que ensinar? Você que sempre teve oportunidade de estudo garantida, proteção dos seus pais, a melhor comida, os lazeres mais legais. E tudo que faltava na sua vida era ser grato. Aí você aprendeu. E acha que todas vivem só esse problemazinho? Você quer aplicar a solução que faltava pra sua vidinha boa e enfiar goela abaixo de mulher que tem três empregos, nem dorme, pra sustentar a família? De crianças molestadas nunca ouvidas, que cresceram sem nenhum espaço e que quando tentam falar são caladas por sua “sabedoria”? Ou de negras vítimas de um racismo duro que as exclui todos os dias? Todos esses exemplos são reais, conheço de perto, você não imagina o quanto. Estamos todas vivas, sabemos sorrir, sabemos amar e mais que tudo, somos gratas sim. Aprendemos tudo isso mesmo com todos os nossos problemas e não foi aos 25 anos de idade, após a faculdade que o pai pagou não. Foi levando porrada mesmo. E não precisamos de você e não queremos você falando por nós. Passar bem.


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3 comentários:

  1. Falsa empatia esta de sobra mesmo. Amei o texto!
    Quem sabe sobre a vida é quem esta levando porrada todo dia e não quem tem vida "mansa".
    Www.bemindelicada.com

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  2. Nossa arrasou, Mandy. Na semana passada eu estava discutindo feminismo com um colega meu do projeto de extensão e falamos sobre essa questão do lugar de fala. Pois podemos até sentir empatia pelo sofrimento do outro, mas jamais saberemos pelo que esse outro passa a não ser que estejamos algum dia no lugar dele, e com o preconceito e o machismo é a mesma coisa! E quando alguém que nunca passou pelo que você passa vem dar lição de moral...ah aí é o fim mesmo!

    Beijinhos, e parabéns pelo texto!

    Hel - Leituras & Gatices

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Mandy Francesa
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Ilustração por Carla Nascimento