12 novembro 2015

Resenha livro: Escravas de Coragem e uma pequena reflexão sobre racismo



Escravas de Coragem
Kathleen Grissom

ISBN:  978-85-8041-277-2

Ano: 2014
Páginas: 331
Tradutor: The Kitchen House
Editora: Arqueiro
Nota: 
() Favoritado 2015!

     Belle já tinha problemas suficientes preparando a comida da casa-grande e cuidando para se manter longe dos olhos de D. Martha e de seu filho, Marshall. Eles não sabem que, na verdade, ela é filha ilegítima do capitão James Pyke, por isso imaginam o pior em relação à preferência do capitão pela escrava mestiça.
     Ser responsável por uma menina meio doente que acaba de chegar à fazenda é um tormento do qual Belle não precisava. A garota parece incapaz de reter comida no estômago, mal fala, não se lembra de nada e, às vezes, é até meio assustadora, com sua cara de avoada. Além de tudo é branca e tem cabelos cor de fogo. Mas Belle sabe que, entre as pessoas que a acolheram, a cor da pele não significa nada e por isso acaba recebendo Lavinia de braços abertos.
     Esse é apenas o início da saga de uma família formada por laços que vão muito além do sangue. Uma história de coragem, esperança, força e amor à vida.


Escravas de coragem é um livro de drama fictício. Tem como cenário um período escravocata no sul dos Estados Unidos. Escrito por um autora branca (essa informação a olhos críticos é importante), a história é narrada por duas personagens que vivem em uma fazenda chamada "Carvalhos Altos". Dessa forma somos imersos à dolorosa vida de Belle, uma escrava negra que desempenha atividades dentro da casa grande; e também à ingênua percepção do mundo de Lavinia, uma escrava branca.

Começo a resenha expondo cores porque é por conta dela que a trama se desenvolve. Belle é filha ilegítima do Capitão da fazenda, James Pyke. Porém, por ser negra é claro que a única coisa que muitos ali podem imaginar é que o Capitão a trata como sua favorita porque ela lhe desperta interesse sexual. Ainda quem conhece a verdade sobre Belle, a orienta a fugir da fazenda. Embora ela ame aquele lugar e nunca tenha feito nada de errado, nem sob a ótica escravista da época, a todo instante essa menina é posta em "seu lugar", que é um lugar de escravo negro.



Lavinia chega à fazenda ainda criança após ter perdido os pais e ter sido arrancada de seu irmão. Ela é vendida como escrava para o Capitão Pyke. Doente e assustada, mal se aguenta em pé, não fala uma palavra, por isso é entregue aos cuidados de Belle. Lavinia é branca, de cabelos ruivos e traços finos, ela é ensinada a trabalhar como escrava dentro da casa grande, porém, é sempre tratada de forma diferente.

As duas personagens são muito diferentes e antes de entrar em questões mais profundas preciso elogiar a criatividade da autora. Ela criou vários personagens que não seguem uma minha similar de personalidade, é como se o livro fosse até uma biografia, de tão verídico e real que tudo parece.



Agora precisamos conversar sobre cores. Esse livro se passa no final de 1700 e início de 1800. Mais de duzentos anos atrás. E infelizmente tudo o que acontece no livro é atual. Belle é perseguida, maltratada, estuprada - e sim isso poderia ser um spoiler, mas quando se trata deste tipo de violência devemos sempre alertar porque há muitas mulheres que vivem essas situações e não suportariam ler uma cena dessas. Belle sofre terrivelmente e tem uma noção de vida, uma percepção do mundo totalmente madura. Enquanto isso temos Lavinia, inocente, preservada, respeitada. Lavinia ainda é uma escrava, ainda dorme nas casinhas pobres afastadas da casa grande, come com as mãos e vive na mesma condição social que vários escravos negros. Mas Lavinia é branca e por isso ao longo do livro ela recebe várias oportunidades que Belle jamais sonharia.

Se você não acredita que esse privilégio ainda existe em 2015, se você é branco e não enxerga que o racismo na nossa sociedade ainda é forte, que nós vivemos sob as heranças da exploração e segregação da população negra, você é uma pessoa desinformada e provavelmente leviana.


Escravas de coragem traz questões sobre racismo, violência à mulher e patriarcado através uma escrita brilhante. Este é um livro para ser lido com atenção. É uma história densa, por mais que nos dê vontade de devorá-la, causa má digestão. Precisamos pensar sobre as formas como as relações nesse livro acontecem. 

Não pude sair ilesa dessa leitura. Saí ferida, mancando, com vontade de vomitar e uma necessidade urgente: discutir sobre racismo, sobre a falta de oportunidades que a população negra até hoje é imposta. Sou branca e por isso não tenho nenhuma vivência de exclusão racial, nem sequer penso em entrar no movimento de resistência negra, mas preciso discutir essas pautas, abrir os olhos para os meus amigos brancos para que todos enxerguem como somos privilegiados. Ainda que pobres, favelados, de escola pública tanto quanto nossos vizinhos negros, nós somos tratados de forma diferente e isso é injusto.

Recomendo absurdamente esse livro. Deixo o aviso de cenas fortes e suplico para que leiam com olhos atentos e reflitam sobre todas as questões que o livro traz. Quem leu o livro, convido a deixar um comentário sobre esse assunto aqui no blog! ❤ Sintam-se todos convidados a debater o assunto! :)

 


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12 comentários:

  1. Oie, pela capa já notei que ele parece ser um livro lindo. Sua resenha me deixou curiosa, principalmente pela carga dramática que o livro trás.
    Adoro ler e até assistir histórias que se passam lá nos anos de 1800 por ai, fico sonhando em como seria.

    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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  2. Ooii, pela capa ele parece ser realmente encantador e fiquei bem curiosa, adorei as fotos e a resenha, não conhecia o seu blog e estou amando <3
    Beijos

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  3. Oiê
    Devo concordar com a Helena, essa capa é muito magnifica mesmo! nunca tinha lido resenhas sobre o livro, mas achei bem interessante a proposta do livro, vou adicionar a sua dica na minha lista de desejados
    Bjks
    Passa Lá - http://ospapa-livros.blogspot.com.br/

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  4. Amanda, não conhecia o livro.
    E mesmo antes de ler já me senti machucada por se tratar de um livro que se passou há tanto tempo atrás, mas que infelizmente é algo tão atual.
    Me interessei muito pela história.

    Lisossomos

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  5. Olá; ainda não conhecia o livro, mas achei muito pertinentes os seus comentários sobre ele; com o tempo venho abrindo os olhos para situações que muitas vezes estão mascaradas em nossa sociedade, entre elas, o racismo, o preconceito e a violência que as mulheres sofrem. Com certeza lerei quando puder.

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  6. Não é o tipo de livro que eu escolheria sem uma indicação, mas agora que li a resenha, conheci um pouco do enredo, mesmo o livro não sendo o tipo de leitura que eu busco, o tema é muito interessante.

    http://laoliphant.com.br/

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  7. Nossa, eu amei a premissa desse livro. Estou atualmente lendo um livro que retrata a realidade da escravidão e estou particularmente sensível ao assunto. Quero muito abrangir meu conhecimento e meu contato com os livros e tudo o mais que abordar o tema.
    Bela resenha!

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  8. Oiii, Tudo bem?
    Ainda não tinha ouvido falar desse livro e nem da autora, mas ainda não tive a oportunidade de ler, quero lê-lo em breve, pois é o tipo de livro que me agrada. A capa é muito linda.
    Amei o post, parabéns.
    Bjs da Mary.
    http://leiturasdamary.blogspot.com.br/

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  9. não conhecia o livro mas o enredo e atrai bastante.

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  10. Adorei a resenha, acho que é sempre necessário ler sobre, questionar sobre e conversar sobre. Racismo ainda existe e é através de um rio de sangue negro que chegamos por aqui. Espero de coração que consigamos um dia sermos apenas seres humanos sem distinção para sexo, cor, religião ou qq outra diferença.

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  11. Não dava nada pelo livro e sua resenha me deixou de queixo caido. Simplesmente amei a resenha fiquei extremamente curiosa, vou dar logico uma chance, correr atras para adquirir
    http://marifriend.blogspot.com.br/

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  12. Achei o enredo tão perfeito! Cara, eu quero ler esse livro, espero que seja bom para mim, porque essa ideia é linda!

    Abraços e até!

    http://lendoferozmente.blogspot.com.br/

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Mandy Francesa
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