13 maio 2015

O problema dos funkeiros mirins


Vamos lá, direto ao assunto, o que pode ser problematizado à respeito dos funkeiros mirins é o conteúdo da arte que “criam” e estão envolvidos. Sim, considero que o funk é uma arte, afinal é a expressão de um grupo de pessoas, das características de um povo em forma de música. Outro esclarecimento: não me identifico com o funk, apenas respeito e compreendo que outras pessoas tem o direito de gostar e se sentir representadas. E este texto será sobre crianças que cantam, ouvem ou dançam um funk de forte apelo sexual, também explicarei aqui porque é necessário se preocupar com isso.


Biologicamente falando, crianças são imaturas. Nós temos uma área do nosso cérebro que de maneira grosseira e generalista, para fins didáticos, contarei que é responsável pela nossa maturidade. A área em questão se chama pré frontal e ela de fato tem um “desenvolvimento” geralmente quando estamos saindo da faixa da adolescência. 

O que quero dizer com essa justificativa, que adoraria esmiuçar em um momento mais adequado, é que crianças não tem uma capacidade “racional e reflexiva” excelente sobre suas condutas. Provavelmente por isso olhamos envergonhados para o nosso passado adolescente e hoje adultos pensamos que não deveríamos ter feito certa coisa com 13 anos ou o quanto foi perigoso ter feito. Na época não estávamos biologicamente maduros como na vida adulta.

E o que eu penso sobre crianças extremamente novas cantando que querem sentar em aparelhos reprodutores masculinos? Bem, uma das coisas que receio que aconteça é que essas crianças sejam apresentadas de forma negativa à uma banalização da vida sexual. (Ou seja, deixei em aberto que eu acredito em uma forma positiva de banalização sexual)

Eu apoio uma mulher adulta, um homem adulto que fazem sexo com muitos, em qualquer lugar, quantas vezes quiser. Se a pessoa for feliz assim, o que desejo mesmo é a felicidade dos meus próximos. Mas isso só serve para os adultos que possuem lobo pré frontal amadurecido, que têm consciência dos riscos que a prática sexual oferece, como doenças ou uma gravidez indesejada. Quando uma pessoa assume as responsabilidades de uma vida sexual ativa e decide vivê-la de forma bem movimentada, aplaudo de pé a felicidade dos adultos maduros que convivem comigo. Mas me pergunto que responsabilidade, que maturidade habita a mente desses funkeiros mirins? 

Me centrarei então nos riscos de ser inserido tão novo numa vida sexual ativa e principalmente numa vida sexual banal. Primeiramente não acredito que saibam lidar com a complexidade de uma AIDS, de uma gravidez indesejada, de um aborto, de uma eclampsia, enfim, das várias consequências que uma atividade sexual pode trazer. E falo como profissional que teve experiência com esse público. 

As meninas se sentem totalmente desamparadas, muitas vezes não tem a menor noção do que estão fazendo e acabam constituindo novamente famílias frágeis, de vínculos difíceis, de estrutura mínima. Uma família sem comunicação é algo preocupante, afinal estamos falando de um grupo social vital; muito pode ser aprendido e absorvido com o círculo social mais próximo e íntimo de você. Esse é um dos motivos pelos quais o professor do seu filho estima tanto a sua presença na escola, embora ele seja o professor e tenha um potencial educador grandioso, é na relação com a família desde incrivelmente os primeiros meses de vida que as crianças aprendem a se relacionar com o mundo. Pessoas que ocupem o lugar materno e paterno (e aqui pode ser apenas uma mãe, uma mãe e uma avó, dois homens, etc) são essenciais para o desenvolvimento saudável de um novo ser social.


Mas, retornando às crianças inseridas num contexto sexual explícito, explico que não estou aqui como uma puritana, inclusive com muito orgulho não tenho a intenção de ser. Estou aqui como adulta, como colega de profissionais médicos que fazem partos todos os dias de meninas de 11 anos totalmente assustadas. E quero dizer que não acho que a gente deva tirar as crianças correndo da sala quando há uma semana de sexo na tv ou que se caso ela descubra um gosto musical por funk, em especial o de conteúdo quase pornográfico, que então deva ser trancafiada no porão de casa, acorrentada com apenas água limpa e comida. Não é necessário esconder as crianças do mundo, pelo menos na minha opinião. É preciso conversar, compreender, orientar e explicar a complexidade de coisas que pra idade delas é difícil de entender.

Direi algo especificamente para quem assiste aos cantores infantis desse estilo específico de funk: acompanhem e na dúvida procurem um órgão sério de proteção à criança e ao adolescente e peça orientação, se for o caso de realizar uma denúncia, o façam. Uma denúncia para o conselho tutelar não significa que o abrigo de menores vai bater na porta daquela família e arrancar a criança dos braços da mãe; significa que profissionais serão alertados para averiguar uma ocorrência. Quando observado que de fato há um problema sobre os direitos de uma criança ou adolescente, se dá início a um suporte psicossocial para ela e as pessoas que convive. Acompanhamento técnico vai ser sempre benéfico para uma família. (Lembre-se apenas de usar a razão e não olhe a partir de seu valor moral pessoal.)

Então, deixo aqui meu apelo para os pais e familiares, até professores e profissionais em projetos com este público. Tenham diálogo, apoiem a reflexão. Ouvir que se quer sentar em colos de muitos rapazes ou largar muitas meninas de barriga não necessariamente vai significar que seu filho, sua sobrinha vá fazer isso. Mas é um ambiente de estímulos questionáveis. É claro que muitos advogados, médicos, psicólogos, professores se formaram, possuem uma vida bem estruturada mesmo depois de terem descido na boquinha da garrafa nos anos 90, enquanto muitas crianças que foram criadas dentro dos ensinamentos de uma igreja se tornam adultos irresponsáveis e possuem vidas miseráveis em todos os sentidos. Não há certezas quando o assunto é subjetividade humana.  


Enfim, não existe uma resposta certa sobre o futuro de um fukeiro mirin. Cantar coisas obcenas e sobre assuntos que talvez a idade não permita boas reflexões sobre, não quer dizer necessariamente que assistiremos à um fracasso de adulto. Porém, também não se pode deixar de questionar que valores a criança pode construir a partir de um ambiente como esse. Por isso, mais uma vez, ressalto a importância do diálogo. Conhecer nossos filhos, alunos, pacientes é a única forma de saber como eles lidam com os estímulos que recebem ao longo de suas pequenas vidas; e também apenas através de conversas podemos apresentá-los a reflexões necessárias para uma vida que é de interesse da própria criança/adolescente.



P.s.: Existe toda uma discussão especialmente sobre a observação de que crianças de famílias pobres geralmente passam pelo processo de adultização de forma muito precária e prematura. Os jovens de famílias de pouca estrutura emocional -e por acaso muitas vezes financeira-, geralmente iniciam uma vida sexual muito cedo porque saem da infância protegida (a infância burguersa) muito cedo. É um tema muito rico e só não o explorei aqui para reduzir o texto atual, mas estou aberta a essa discussão.
Leia mais sobre:

19 comentários:

  1. Nunca li um post tão completo, cheio de opinião...
    Tomando como exemplo a Mc Melody, o pai alega que ''tiraram a filha de casa'' e dos braços dele. E que a ''culpa de tudo isso são de pessoas que não tem nada pra fazer e se metem na vida dele''. Eu acho que é totalmente o contrário. Primeiramente, se você se expõe na mídia (de nós, blogueiras, criando conteúdo e expondo pontos de vista até mesmo uma menina rebolando e descendo até o chão), dá abertura para que as pessoas, querendo ou não, se intrometam na sua vida.
    Sendo assim, ele expôs a vida da filha na internet, dando abertura para que outras pessoas ''cuidassem da vida dela''. E na boa, que pai faz isso com os filhos? É uma exploração sexual, sim. Ou vai me dizer que isso não chega no estrangeiro em sites pornos ou algo do tipo...?
    Falta educação, fiscalização, justiça que realmente funcione... E parece que vai faltar por muito tempo!

    Adorei o seu post! Beijos,
    juliacharan.com

    ResponderExcluir
  2. Mandy, também tenho as mesmas preocupações... adoro o seu canal e adorei o seu texto, beijos querida!!!

    ResponderExcluir
  3. Olá, querida!
    Tenho acompanhado as discussões sobre a temática e não gosto de generalizar de nem de esvaziar a temática social de minhas análises. Eu não gosto de texto eurocêntrico e deterministas.
    http://www.poesianaalma.com.br/

    ResponderExcluir
  4. Ola Mandy, esse é um tema que muito me preocupa,sou mãe de uma menina de três anos que repete tudo que vê e ouve então me esforço ao máximo para evitar que ela tenha contato com conteúdo que eu considere inadequado mas já ouvi criticas de mães funkeiras de que estou criando para ser nerd e que ela não vai se encaixar depois, quando na verdade só quero que por enquanto ela aproveite a infância, não me sinto confortável vendo crianças se comportando como adultos e menos ainda vendo adultos achando isso normal.Enfim adorei o post foi esclarecedor, parabéns.
    beijos
    http://sonhosdeleitor.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  5. Oiii
    Gostei muito do seu texto, ele apresenta um tema que esta sendo muito debatido mas não esta sendo feito nada sobre isto. Diálogo é muito importante assim como permitir que a criança seja criança, não impor comportamentos e obrigações de um adulto.

    Coração Leitor

    ResponderExcluir
  6. Oie tudo bom? Eu super concordo com você, penso que pais que estimulam esse tipo de pratica nas crianças são irresponsaveis, é uma tema que tem que ser muito discutido e divulgado, pois estao banalizando o sexo na vida de crianças que ainda tem tanta coisa para viver e aprender, é um absurdo eu fico revoltada. Quero te parabenizar por escrever sobre o tema, precisamos de mais pessoas como vc discutindo temas polemicos! bjos

    ResponderExcluir
  7. Olá Mandy, infelizmente sou "obrigada" a concordar com você, eu acredito que exista tempo para tudo na vida e não se trata apenas das crianças artistas do funk ou outro gênero não a coisa está é feia geral. Ainda esta semana vi em uma reportagem que uma médica de uma certa região deSão paulo estranhando que a maioria das jovens mãezinhas estavam pedindo exame de dna e foi procurar saber pq.todas disseram que engravidaram no trenzinho ...pq elas vão sem calcinha pro baile e qlq garoto que chega junto vai rolando o ato sexual e são vários em uma unica noite. Eu sinceramente neste caso acho que problemas graves exige medidas drásticas. Em primeiro lugar o bem estar das crianças o resto vem depois. bjs
    http://florroxapoemasepoesias.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  8. Olá! Adorei seu post, muita informação bacana!
    Concordo plenamente com você. Não gosto de funk mas acho que os adultos são livres para fazerem o que bem entendem, mas essa adultização das crianças me dá nos nervos, criança tem que ser criança!
    Casos recentes e mais polêmicos só mostram a que ponto nossa sociedade está chegando e que é preciso haver consciência por parte dos responsáveis!

    ResponderExcluir
  9. Oi, tudo bem?
    Faço suas palavras as minhas. Não gosto do Funk por causa da sua depravação dos direitos mas são adultos sabem o certo e o errado ao contrario das crianças, na minha opinião ela nem sabe o que está fazendo ou cantando.

    ResponderExcluir
  10. Que post maravilhoso! Trabalho com Educação Infantil e fico impressionada com todo esse movimento deles em relação ao funk. Meus alunos não dançam a galinha pintadinha como deve ser, mas sim em ritmo de funk. Não é querendo banalizar nada, mas como profissional da área sinto que qualquer coisa que fuja a realidade infantil prejudica e muito a primeira infância. Beijos

    ResponderExcluir
  11. Oieee, tudo bem? Adorei sua postagem, meus parabéns. Sabe o que eu pensei quando estava lendo esta postagem??? Realizar pesquisa nesta área, estou naquela época da faculdade onde tudo pode virar pesquisa, artigo e tal e estou procurando novos assuntos para escrever alguns artigos e esta premissa me pareceu muito interessante, muito obrigado pela inspiração e mais uma vez parabéns pela ótima postagem!!!

    ResponderExcluir
  12. Olha eu sinceramente tenho que confessar que eu não gosto e nunca gostei desse negócio de FUNK. Antigamente eu gostava de RAP, das antigas que tinha té o RAP BRASIL que era bastante famoso e era uma música assim tranquila, mas não tão imoral como é hoje. Eu acho um absurdo as letras. A maneira como as pessoas dançam, enfim...Mas isso ai é o gosto de cada um e não cabe a gente a julgar, mas o problema realmente são as crianças que estão vindo agora nesse mundo de hoje, porque eles repetem tudo que vê e acaba criando em um ambiente onde não é o correto. É complicado. Eu nem sei como falar disso, mas eu sinceramente acho atitude de muitas pessoas horrivel !

    http://lovereadmybooks.blogspot.com.br/2015/05/resenha-delirio.html

    ResponderExcluir
  13. Particularmente não escuto funk, não tenho músicas desse estilo musical no meu celular, mas acho saudável respeitar quem escuta. Afinal, muita gente também não escuta rock ou pop que eu aprecio tanto.
    Por grande parte das letras terem um forte apelo sexual, concordo com você quando fala sobre o diálogo. As crianças dificilmente entendem o que está sendo tratado naquela musica, então precisa ser explicado e discutido. Não creio que seja apenas pela música, mas hoje meninas e meninos estão "pulando" a infância para iniciarem a vida sexual, então a conversa, o debate, tem que ser sempre a primeira opção.

    http://bibliotecacolorida.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  14. Olá!
    Bom, concordo plenamente com seu post, esse "introdução" de crianças ao funk não é, de momento, errado, mas o errado está nos finos ouvidos por essas crianças e cantados também. Creio que música é feita para ser escutada, porém por pessoas que entendam a letra dela, esse apelo sexual que está ocorrendo hoje em dia é um vaso muito sério e pode ter graves consequências no futuro e já está tendo no presente! Tem coisas que as "crianças" fazem que eu nunca cheguei perto de fazer e eu fico, tipo, :0 ... Adorei seu post, muito informativo!!

    Abraços e até!!

    lendoferozmente.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  15. Oi, como vai?
    Seria hipócrita ao dizer que não ouço funk, ou funk com apelo sexual. Frequento festas e sempre tocam, então, me acostumei, mas nunca irei me acostumar ao ver uma criança cantando ou dançando esse tipo de música. Claro que concordo com você, escondê-las do mundo não é o certo, o certo é orientar, oque muitos pais não fazem. Já vi mães aplaudindo garotas de 11, 12 e 13 indo até o chão e rebolando para um garoto, oque é um absurdo! A garota mal saiu da infância para a pré adolescência e a mãe já a incentiva a fazer isso. Mas também acho que tem muito da maturidade mesmo, da cabeça de cado um. Já vi garotas de 14 anos mais maduras que garotas de 17, e eu mesma, ainda nos meus 16, sei muito bem oque devo ou não fazer e nunca faço nada contra a minha vontade, oque muitas vezes acontece com garotas mais novas por medo de as amigas ficarem comentando e serem excluídas.
    Enfim, é um assunto que rende e realmente merece uma discussão boa. Beijos!

    ResponderExcluir
  16. Oi,
    Tenho acompanhado muitas discussões sobre o tema, assim como você não generalizo, sempre acreditei que deve sempre prevalece o dialogo entre as partes, a família dentro de casa, não se pode julgar as pessoas por um simples gosto musical..na minha opinião, mas respeito que pensa diferente.
    Beijos



    Mari - Stories And Advice

    ResponderExcluir
  17. Olá! Achei o texto interessante, mas também fico pensando sobre os contras e os prós. Acho que ouvir ou não determinado tipo de música vai da vida familiar de cada criança. Ela pode ter uma vida familiar estruturada e ouvir funk, assim como pode ter uma vida familiar completamente desestruturada e ouvir clássico. O que quero dizer é que o que vai dar o tom final, ou melhor, conduzir os fatos, refletir na atitude do indivíduo, será a forma como a família conduz o que a presenta ou deixa de apresentar aos seus filhos. Não dá pra generalizar, concordo plenamente, em casos assim fico sempre com o talvez e procuro analisar de perto as situações.

    abraço!
    Pensamentos Valem Ouro

    ResponderExcluir
  18. Olá, gstei muito do seu texto, bem completo. Vou te dizer que aqui em casa gostamos sim de um bom funk, mas jamais com apelos sexuais,com baixaria ou palavrões, aqui curtimos o funk do Claudinho bochecha, Valesca, Ludmila, Naldo e por aí vai. São funks que sei que não irão atrapalhar no disernimento dos meus pequenos, apesar que eu acho que isso também vai da criação, porque em casa não ouvem, mas tenho vizinhos que ouvem funks com putaria o final de semana todo, mas eu ensino que isso não é música e nem tão pouco coisa pra se curtir. Mas criar filhos é difícil, então é ensinar o certo e o errado e orar pra Deus, porque crescem e aí ninguém segura mais, só a educação que você deu a vida toda que irá influenciar, nada mais.


    bjs

    ResponderExcluir
  19. Oi, flor!
    Você fez o deve de casa em? Muito bacana essa sua iniciativa de falar sobre um assunto tão polemico e que está dando o que falar nas mídias.
    Também sou uma daquelas que não curtem o Funk, em nenhum contexto acho que seja algo que nos passe uma mensagem. Deveria ser proibido que crianças cantassem ou ouvisse sobre esses assuntos.

    Realmente é muito complicado criar nosso filhos no mundo de hoje, mesmo você passando todos os ensinamentos do que é o certo e o errado, mas o mundo vem e ensina outra coisa. Fica difícil, mas não desistimos nunca.
    Adorei o texto.
    Parabéns!

    Beijocas da Deebs!

    ResponderExcluir

 


Mandy Francesa
Direitos reservados 2014/2015 ©
Desenvolvido por Laíza Cabral
Ilustração por Carla Nascimento